Autor: Rosival Muniz de Albuquerque (rkmalbuquerque@uol.com.br)
Não sei se o que era reto ficou torto, Ou se o que era torto parecia reto. Queríamos a esperança no lugar do medo, Mas a esperança transmudou-se em ilusão E o medo, real, continuou... decepção.
Antiga cantiga de ninar embalou-nos Torneiro prócere ético prometia Abrir torneira e tudo sair a jorro Comida, dinheiro, saúde, alegria; Despertou no coração a esperança.
Uma nova canção estava no ar, ele lá Tudo seria melhor, ele lá e tudo seria feliz, Antiga cantiga de ninar tomou conta Da nação, do velho, do pai, do infeliz Despertou a esperança, ficamos a sonhar.
Quando chegou lá, o torneiro prócere sério Ficamos a esperar o fim da dor, da miséria, Esperamos, esperamos, esperamos e, nada. Nada para o povo, a nação, e tudo para eles. Só então percebemos a enganação, o engodo.
A antiga cantiga de ninar não era para nós, Era apenas monólogo de um palhaço ébrio Que cantava para os amigos, seus amigos, Amigos próximos, bem próximos dele lá. Restou-nos o arrocho fiscal, as esmolas cá.
Ao fundar a república dos próceres tortos O torneiro prócere torto baixinho cantava: Olha o bacalhau, alô Terezinha, querem farinha? Os amigos próceres próximos clamavam: ---Vale o rio duto, vale o rio duto, valei-nos...
O torneiro prócere torto insistia, outra vez: ---Querem-no mês a linho, querem-no mês a linho... Todos gritavam: --- Não! Mês a linho não, Queremos mês a lão, queremos mês a lão. ---Falem baixo, a senha é: não vi, não sei.
Ao ser fundada a república dos próceres tortos Ficou tudo claro, não havia ética, só estética, Só havia contornos tortos de almas torcidas. O agora é real, não é miragem, não é ilusão, Fomos enganados com a velha canção.
No lugar da esperança veio a corrupção Para o medo, veio o imposto escorchante. Restou-nos os buracos, nas estradas, nos bolsos, Na alma, na esperança
15:53 - 23/03/2006
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